August 25, 2010 – 3:11 pm
É um assunto que sempre gera discussões acaloradas e muitos mal-entendidos. Eu fui entrevista esta semana para uma matéria no portal G1 sobre profissionais de Segurança da Informação que resolveram sair do Brasil. O repórter, Altieres Rohr, fez um ótimo trabalho e conseguiu retratar muito bem os motivos que nos levam a essa opção.
Dias depois a reportagem gerou polêmica em uma lista de discussão sobre segurança, com alguns comentários engraçados e outros meio absurdos. Ao mesmo tempo recebi um comentário meio atravessado de um grande amigo meu que mora no Brasil em resposta a um dos meus posts mais inflamados sobre os defeitos do país do futebol. Pois bem, eu sempre quis escrever com mais calma sobre os motivos que me levaram a uma mudança tão grande, talvez seja o momento de fazê-lo.
Primeiro, é uma decisão pessoal. O que é importante para uns, não é importante para outros. Isso, por si só, já é suficiente para fazer com uma decisão óbvia para uns seja vista como absurda por outros. Logo, todos os meus motivos podem parecer a você, que está lendo isso, como um monte de bobagem. Se for assim, ótimo, pense em quais são os seus motivos para ficar ou sair e seja feliz com sua decisão.
Um motivo muito forte, para mim e principalmente para minha esposa, é a segurança. E quanto a isso não há argumentos, há apenas fatos. Dizer que violência existe em qualquer lugar é como dizer que a enchente no Paquistão não é um problema já que água tem em qualquer lugar. Sim, violência é onipresente, mas tem níveis. O nível de violência em Toronto é muito mais baixo do que Rio, São Paulo ou outra cidade brasileira de tamanho/economia equivalente. A diferença nos números é assustadora. Número de homicídios na cidade do RJ até agora em 2010, 900. Em Toronto, 36. OK, você quer dizer que a maioria dos homicídios no RJ estão relacionados à guerra do tráfico, portanto não se aplicam à sua vida? Veja o número de latrocínios (alguém mata traficante durante um roubo?
, na casa dos 30 até este ponto. Enquanto aqui aqueles 36 incluem o problema de crime organizado, gangues, tráfico, os trinta e poucos do RJ são apenas para quem morreu sendo assaltado! Quantidade de assaltos? Na casa da dezena de milhares no RJ. Há aqueles que argumentam que onde eles moram nunca teve problema, nunca foram assaltados, etc. Ok, pergunte-se quanta gente você conhece pessoalmente que:
- Tem / está comprando carro blindado
- Já foi assaltado à mão armada
- Já sofreu sequestro relâmpago
- Já sofreu com “arrastão”, seja na praia, prédio, etc.
- Já viu/ouviu tiro/tiroteio
Olha, eu consigo encher uma mão fácil só com família, e ninguém morava no morro quando essas coisas aconteceram. Agora, se eu procurar entre os canadenses que eu conheço, é difícil, quase impossível, achar. Para se ter uma idéia da diferença de dimensão, ver uma arma nas ruas já é motivo de comentário e notícia.
Ok, mesmo assim você acredita que o problema não é tão grande assim. Então pare e veja como você se comporta. Anda na rua à noite, tranquilo? Ao pensar em como você vai para algum lugar de noite, considera andar ou usar o transporte público? Ok, se o motivo não é segurança e sim comodidade, pense em como você usa seu carro. Janelas abertas? De noite? Parar no semáforo vermelho de madrugada? Chegar aos poucos no cruzamento para ver se tem alguém suspeito na esquina? Olha o retrovisor para ver se tem motoqueiro suspeito chegando? Não deixa nada de valor a mostra dentro do carro? Tem a “bolsa do ladrão”? Escolhe carro simples para não chamar a atenção? Alguns podem dizer que não fazer tudo isso é “dar bobeira”. Eu chamo isso de viver. Eu não faço nada disso. Pode parecer pouco, mas a sensação de liberdade proporcionada por viver sem tudo isso é maravilhosa. Pode não ter sido um fator determinante para eu decidir mudar, mas é um fator determinante para eu não querer voltar.
A parte profissional eu não preciso comentar muito. Na minha área tem mais oportunidades aqui do que no Brasil, mas reconheço que isso depende da profissão. Fora que tem gente que sofre com o reconhecimento de credenciais aqui. Se você é médico, por exemplo, vai ter se acostumar com a idéia de revalidação, estudar de novo, testes, etc. Não é para qualquer um. Muita gente vem para cá e dá passos para trás em termos de carreira, outros dão saltos para frente. Varia muito.
Agora, meu fator determinante foi cultural. E quanto a isso é bem complicado falar sem pisar em calos, etc. Meu ponto básico, não me identifico nem um pouco com a forma que o brasileiro médio(generalização, CLARO) pensa e se comporta. O culto à malandragem, ao jeitinho, Lei de Gerson. A maneira como as pessoas encaram o coletivo. Aqui o público é de todos, no Brasil o público não é de ninguém (ou de quem chegar primeiro). A corrupção endêmica e generalizada. A avacalhação com as instituições. A cerveja do guarda. Viver com isso me incomodava muito, e ainda mais ser visto como otário por optar em não ser mais um nessa. É claro que tudo isso existe no Canadá, mas existe em níveis muito inferiores aos que vemos no Brasil. Com isso a cultura coletiva também acaba sendo outra. As pessoas pegas com a boca na botija sentem-se constrangidas e envergonhadas, pois há uma clara noção coletiva de que aquilo é errado. O exemplo mais emblemático do Brasil com relação a isso é o Maluf. Já foi pego no flagra, mas simplesmente nega e sorri. E com isso conquista muitos admiradores que clamam “rouba mas faz”, felizes com a nova avenida ou túnel superfaturado que corta alguns minutos do trânsito diário. Aqui você vê os políticos suspeitos de corrupção renunciando imediatamente. Por que o comportamento no Brasil é segurar-se o máximo possível no cargo? Lembrando que no Japão é comum o cara se matar quando pego em situações como essas. Quais valores você gostaria de ver seu filho aprendendo?
O último argumento “contra” a mudança é ainda mais complicado, o famoso “patriotismo”. Nesse assunto meu pensamento é alinhado com o filósofo alemão Schopenhauer:
Every miserable fool who has nothing at all of which he can be proud, adopts as a last resource pride in the nation to which he belongs; he is ready and happy to defend all its faults and follies tooth and nail, thus reimbursing himself for his own inferiority.
- Arthur Schopenhauer, Aphorisms
Na minha opinião o patriotismo (assim como a religião) é um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento da humanidade. É ter gente se achando melhor do que outros simplesmente por conta do local onde eles nasceram (ou vivem). Eu não vejo motivos para amar o Brasil como “pátria”, ainda mais quando não me identifico com a cultura e os valores de seu povo. Eu tenho sim, carinho pelos lugares nos quais passei a maior parte da minha vida. Um enorme carinho por São Paulo e os lugares que eu gosto de lá, como o Pacaembú, o centro da cidade, o parque do Ibirapuera. Mas posso dizer, com certeza, que não sou um patriota. Em uma “discussão de bar internacional” eu não vou ser o cara defendendo o Brasil. Alguns podem me acusar de ingratidão com o país, mas eu acho que devo gratidão aos meus pais, minha família e amigos. Ao país? Não tenho motivos. Por conta dessa visão mais fria (eu prefiro chamar de “pé no chão”) tenho opinião muito crítica quanto às Olimpíadas de 2016 e à Copa de 2014. Estão dando a quadrilhas de bandidos (governos, CBF, COB) uma enorme oportunidade de roubar bilhões enquanto o país luta para sair da lama social, educacional, cultural e moral. Não faz sentido algum. Ainda assim, vou ser o vilão da “turma do Galvão Bueno”. O pessoal que vê como grande conquistas esses eventos serem feitos no Brasil, e qualquer outra coisa que o país ou brasileiros façam. Aqueles que acreditam que o brasileiro, quando quer, se sai melhor do que qualquer outro em qualquer atividade, seja ela esportiva ou profissional. Não é verdade, pessoal. Não somos melhores do que ninguém. Também não somos piores. Logo, sem esse ufanismo besta. Soa como tentativa de auto-afirmação para compensar o complexo de vira-lata. Não tem “ou está conosco ou contra nós” nesse assunto. Eu falo mal do Brasil no que o Brasil merece, e falo bem quando merece. Sou um grande defensor do futebol brasileiro, do álcool brasileiro e do nosso churrasco por estes lados, mas não espere que eu saia falando que o brasileiro, sob as mesmas condições, vai fazer qualquer coisa melhor do que os outros. Não falo porque não é verdade. Ponto.
(como “desabafo pessoal”, posso comentar ainda que muitos desses amantes cegos da pátria brasileira são ao mesmo tempo grandes consumidores de cultura enlatada [norte-]americana, o que é no mínimo curioso. Como amar tanto “seu país” e ao mesmo tempo ser escravo dos produtos culturais que são símbolos máximos de outro país? Mas, de novo, este post é sobre meus motivos, não dos outros)
Algumas pessoas citam os “items de conforto” que elas tem no Brasil, suas empregadas, faxineiras, pintores e pedreiros, como uma possível vantagem do Brasil com relação ao Canadá (e outros países desenvolvidos). Aí depende do ponto de vista. Essa mão de obra barata está disponível no Brasil por conta da desigualdade e exploração social. Se esse pessoal gosta tanto disso, tem como opção morar nos países ainda mais pobres. Vai ter um exército inteiro de “staff” em casa e não vai gastar quase nada. Em uma perspectiva completamente egoísta e individualista é uma vantagem, para quem pode bancar. Para a sociedade, para o coletivo, porém, é mais um problema. Eu prefiro não ter isso disponível e saber que qualquer um pode viver com dignidade, do CEO ao lixeiro. Já reparou como é comum, em conversas de classes média e alta, pessoas se referindo às faxineiras e pedreiros de forma genérica, “elas”, “eles”? Coisas do tipo “ela é de confiança”, “ela é limpinha”? Se isso não é segregação social, não sei o que é. E, de novo, prefiro ter um pouco menos de conforto e saber que meu filho não vai precisar conviver com isso.
Pois bem, são esses meus motivos. O Brasil não é o pior lugar do mundo e o Canadá não é o melhor, mas sob meus critérios de “lugar bom”, há uma grande vantagem do segundo em relação ao primeiro. Tenho saudades do Brasil? É claro que tenho! Como eu disse, tenho um enorme carinho por tudo que aprendi a gostar em 30 anos morando lá. Lugares, comida, eventos, muita coisa. Minha família e meus melhores amigos estão lá também, e todos os dias eu penso neles com muita saudade. E são eles que farão com que eu volte sempre que possível para visitar, para poder matar essa saudade. Voltar a morar lá? Não sei. Os lugares mudam, nossos critérios mudam. Hoje meu país é o Canadá. Meus valores e forma de pensar estão mais alinhados à cultura daqui. Eu me sinto em casa aqui. Quando isso mudar (se mudar), aí é hora de pensar para onde ir. Hoje? Não, obrigado.
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