Como começar um trabalho de segurança?



A espinha dorsal de um bom trabalho de segurança com certeza é a análise de risco. Sem ela, corremos o risco de tratar aquilo que é menos importante. Porém, não é sempre que podemos começar por ela. O mundo não para, esperando que tenhamos nossa análise pronta dizendo "o crítico é isso!". Além disso, há outros pontos, como imagem, política, etc, que contam no momento de escolher as primeiras ações. Eu pessoalmente vejo um misto de ações "p/ a torcida", com o intuito de ajudar na imagem da área de segurança (é importante!) e de ações emergenciais, como instalação de patches críticos ou até mesmo alteração de uma senha aqui ou acolá.


Depois, ou melhor, em paralelo, inicia-se um trabalho de entendimento da empresa. O que ela faz? P/ onde ela quer ir? O que a ameaça, em termos de negócio? Quais seus principais processos (por cima!)? Como é a tecnologia que apóia tudo isso? Quem são as pessoas e funções chave? Com isso é possível, para o bom consultor de segurança, identificar os pontos mais perigosos. O trabalho pode usar como base alguma norma de
cálculo de risco, como a NIST 800-30. Sendo simplista:


RISCO = VULN x IMPACTO


Aonde o VULN seria a probabilidade de uma ameaça se concretizar através da exploração de uma vulnerabilidade. Vejam que falamos de ameaça, e um bom pedaço de dessa informação vêm do negócio.


Tomemos bancos como exemplo. Se estivermos pensando na ameaça de fraude por parte de desenvolvedores internos, por exemplo. O quanto que isso é comum? Há casos aonde isso acontece no mercado financeiro? Em termos de fraude financeira, qual a facilidade do cara fazer isso? Acho que são informações que só sairão de uma conversa com pessoas de negócio (estou incluindo operações), habilmente conduzida por um bom consultor
de segurança.


O IMPACTO é outro componente simples se não houvesse o problema de processos e sistemas interligados. Há também as diversas variantes quanto ao aspecto de segurança atingido (C, I, A). A pessoa de negócio pode enxergar o impacto do comprometimento da confidencialidade (é o que mais simples de ver), mas será que ele consegue pensar nos
impactos referentes à integridade e disponibilidade sem a ajuda de um profissional? Tentar simplificar isso com classificações acaba levando a classificações demasiadamente complexas, o que sabemos que não funciona.


E quanto aos controles de COBIT, COSO, ISO17799, etc? Por que não devo simplesmente aplicá-los, se é isso que todas as palestras por aí dizem??


Por que não é só isso! Aquilo tudo são processos e ferramentas para trabalhar a maturidade da segurança, mas não é o principal, e principalmente, não é começo, como muita gente está pensando. Eu sou do time que não acredita em checklists mágicos. Se eles existissem, com certeza teríamos a super-norma que resolveria os problemas de segurança de todo mundo. Que pena (ou que sorte p/ nós!) que não é assim.


Em TI existe o papel do Analista de Sistemas, ou Business Analyst ou sei-lá-que-nome, aquele cara que entende os requisitos do negócio e passa p/ a fábrica de software desenvolver em uma linguagem já uniforme e padronizada. Se uma tarefa como construção de software ainda requer uma pessoa com essa inteligência, por que não seria
necessário ter o mesmo papel quando o assunto é segurança? O que torna os requisitos de segurança tão diferentes a ponto de que podem ser entendidos de maneira mais simples que um requisito de software?


A abordagem atual em construção de software é que o analista saiba a linguagem do negócio, pois ele vai captar melhor os requisitos. A pessoa que vai usar o software não precisa fazer se o que ele quer é um combo box ou um text box, o analista entende a necessidade. Já tentaram simplificar bastante esse processo, há várias ferramentas,
mas ninguém tentou retirar a inteligência (como vivem tentando fazer em segurança!).


A segurança não pode ser tão pretensiosa a ponto de acreditar que vai "pasteurizar" todos os negócios para receber os requisitos sempre da mesma forma e bem definidos. O negócio não faz isso com outras disciplinas, e não vai fazer conosco. Ele existe por si próprio. Nós não. Nós existimos por causa dele. Aí está a resposta de porque devemos ir até ele, e não o contrário.