Profissionalismo em Segurança da Informação: Existe?




O mercado de Segurança da Informação (SI) é sujo. Apesar de fazer parte dele, é a triste conclusão que podemos chegar ao analisar os fatos. Se compararmos algumas coisas que acontecem no mundo de SI com outros mercados e realidades, vamos ver o quão absurdas elas são. Em tempos onde estamos preocupados em convencer os executivos a investir mais em segurança, talvez seja a hora de olharmos para nós mesmos e verificar se realmente parecemos ser sérios o suficiente para merecer este investimento.

O problema começa com o “quem”. Definimos uma figura, o “hacker”, que mais parece um personagem de filme americano. É aquele cara com QI monstruoso, incompreendido, com tantos conhecimentos em informática que é capaz de fazer coisas que ninguém imaginaria que é possível. Suas habilidades são comparadas às de um grande mago, e nada podemos fazer contra ele. Podemos sim! Podemos contratá-lo para que ele nos proteja de seus ex-colegas, conhecidos de um submundo que poucos sabem a entrada ou mesmo conhecem sua existência, como aqueles esgotos de cidades antigas onde ficam os esconderijos dos vilões das histórias em quadrinhos. Com um “hacker do bem”, estaremos protegidos do “underground”.

Será que é por aí? É muito bonito descrever tudo isso dessa forma, mas todo esse romantismo está muito longe da realidade. Sabemos que não há mágica em TI, e se uma coisa não é possível para um, não é possível para ninguém. São máquinas, e comportam-se como tais. É claro que um maior conhecimento faz com que o indivíduo conheça mais as possibilidades, mas não passa daí. Alguém conhece uma mágica que faz com que um chaveiro abra qualquer fechadura, independente do tipo? Quanto melhor o chaveiro, maior a possibilidade de ele conhecer um método de fazê-lo, mas não é mágica. É comum encontrar afirmações de que “hackers” entram em qualquer sistema, não importa o quão seguro seja. Sim e não. Não vivemos em “Matrix”, e não podemos mudar as leis da física. Retire um computador de qualquer rede. Por mais hábil que seja o “hacker” ele não vai invadir aquele sistema pela Internet. Se o computador não está ligado em rede ele vai ter que ir pessoalmente até lá. Não há “poder hacker” que mude isso.

Mas ainda assim há quem fique tranquilo em contratar um “hacker” para fazer sua segurança. Afinal de contas, ele aprendeu como fazer o mal, logo deve saber como evitá-lo. Porém, em outros casos isso não é verdade. Nesse também não. Faz sentido colocar a polícia nas mãos de um ex-traficante para combater o tráfico? Faz sentido colocar um ex-terrorista para combater o terror? Um mal pagador para avaliar pedidos de empréstimo? Não, não faz sentido algum. E por que faria com o “hacker”? O conhecimento para evitar um mal nem sempre é o mesmo necessário para fazê-lo (tirar a vida é muito mais simples do que salvá-la, por exemplo!). Em um escopo extremamente técnico o conhecimento pode até ser semelhante ou o mesmo, mas não é necessário ter feito um para poder fazer o outro. Se não bastasse, a ética é frequentemente esquecida. E não só a ética, mas também a formação da pessoa como profissional. A formação ética e moral para trabalhar em um ambiente profissional não é necessária para um garoto que invade sistemas como passatempo. Por mais que ele tenha os conhecimentos técnicos necessários, não deve ser uma pessoa indicada para proteger uma empresa. Muitos seguiram por este caminho e encontraram problemas graves de relacionamento profissional com essas pessoas.

Perpetuamos o problema ao continuar criando uma aura de magia e mistério sobre eles. Não há nada de espetacular. O “fenômeno hacker”, aquele que fala de jovens capazes de invadir qualquer sistema com suas habilidades quase sobrenaturais e que se reúnem em salas de chat secretas do “submundo”, não passa na realidade de jovens com um passatempo discutível em termos éticos. Felizmente alguns, no processo de amadurecimento, percebem o que estão fazendo e acabam no futuro se tornando profissionais de segurança. A maioria, porém, vê isso apenas como um passatempo e uma maneira de contar vantagem em uma roda de amigos. “Sou hacker”, adoram dizer. O curioso é que para entrar em tais grupos basta demonstrar conhecimento técnico, “atitude” (gírias típicas, “currículo” de invasões, etc) e ter um pseudônimo original. É extremamente preocupante ver que alguns deles, ao tentar passar para o “lado do bem”, mantém seus pseudônimos com orgulho, esquecendo que a transparência é o comportamento mais adequado para o mundo profissional. Profissionais que tem medo de usar o próprio nome em suas ações e declarações não são confiáveis.

Talvez como reflexo da origem dos profissionais, outros problemas acabam aparecendo no nosso mundo que contribuem ainda mais para manchar nossa reputação. A divulgação de vulnerabilidades é um deles. Ninguém discorda da necessidade de pesquisar e encontrar vulnerabilidades nos sistemas que utilizamos, pois assim com nós podemos fazê-lo, aqueles que pretendem explorar tais vulnerabilidades também podem. Como fazer essa divulgação, entretanto, de maneira que esta ação não contribua para aumentar o problema advindo da vulnerabilidade? Em um tempo onde os fornecedores de software preferiam negar e existência das vulnerabilidades a disponibilizar uma correção, até fazia sentido fazer uma divulgação aberta das descobertas. O conhecimento público forçava a empresa a corrigir a falha, pois seus clientes passariam a saber que estavam vulneráveis. Com o tempo, porém, a postura das empresas mudou. Hoje é raro encontrar uma empresa que tente negar a existência de uma vulnerabilidade. Sendo assim, não é mais necessário abrir a falha ao público logo de início. Ao informar antes o responsável dá-se a chance de que uma correção seja criada antes da falha ser conhecida pelo público. A chance de ataques acontecerem antes da falha ser corrigida diminui. Em caso de falha no site de uma empresa, e não em software, a postura de divulgação pública torna-se ainda mais incorreta. Informar apenas a empresa cujo site precisa ser corrigido permite a ela que efetue a correção sem aumentar o risco de potenciais invasores conhecerem o problema. É claro que ainda vão existir casos onde a empresa responsável por corrigir a falha fará pouco caso do problema, tornando necessária uma pressão maior, talvez através de uma divulgação aberta. Hoje esse comportamento está cada vez menos comum, permitindo aos pesquisadores adotar uma forma de divulgação mais adequada. Não é mais necessário “plantar o terror”. Algumas das maiores pesquisadoras de vulnerabilidades já adotaram tal prática, como eEye, @stake, ISS e outras.
Apesar da postura profissional ser clara nesse sentido, há ainda uma cultura no meio que acaba atrapalhando a adoção de práticas assim. Muitos profissionais são pessoas engajadas em projetos de software livre. Com isso, acabam demonstrando uma certa indignação com empresas cujo objetivo é vender aquilo que eles acreditam que deve ser aberto e livre. A Microsoft, por dominar o mercado de sistemas operacionais, é quem mais sofre com isso. É claro que o histórico de falhas em seus produtos acaba trazendo uma resistência natural por parte dos profissionais, mas o comportamento acaba tendendo para o infantil, com atitudes como “se é falha no Windows vamos divulgar para todo mundo, para que vejam o quanto a Microsoft é má e não se importa com segurança”. O nível de necessidade de segurança para sistemas operacionais de PCs cresceu muito nos últimos anos, e é natural que a empresa tenha dificuldades em adaptar seus produtos. Birra e guerrilha, porém, não são os comportamentos mais indicados para aqueles que tem a missão de proteger. Recomendar outros produtos, sim. Sabotar o uso de produtos Microsoft por simples antipatia, não parece profissional.

Mesmo sem preconceito quanto a produtos, ainda erramos ao fazer o trabalho de conscientização dos executivos. Ainda é comum ver profissionais trabalhando exclusivamente em cima de FUD (Fear, Uncertainty and Doubt), ou seja, medo. Toda vulnerabilidade então é apresentada como “crítica”, podendo causar danos enormes e imensuráveis. Mostra-se tudo de ruim que pode acontecer, sempre com um certo capricho nos exageros, mas sem oferecer subsídios para o executivo tomar decisões. Ao querer corrigir tudo, acabam tentando mostrar que tudo é crítico e indispensável. Com o passar do tempo o executivo descobre que aquilo não era tão crítico, e acaba assumindo que o pessoal de SI só exagera e que não é preciso investir naquilo. Um tiro no pé. Precisamos passar a trabalhar em cima de riscos, se não totalmente mensuráveis, pelo menos passiveis de priorização. Análises de vulnerabilidades são interessantes, mas devemos ser sinceros quando nos pedem para apontar o risco de cada ponto.

O escopo de atuação é o último ponto que deve ser discutido, mas não o menos importante. SI é um assunto amplo e que deve ser tratado em diversas frentes. É raro também encontrar profissionais que conheçam o campo de maneira ampla. Alguns profissionais, além de desconhecer os pontos diversos de sua área de atuação, também pregam que não são importantes e não devem ser tratados. Profissionais mais técnicos dizem que não é necessário criar políticas, conscientizar usuários e analisar processos, enquanto profissionais de escopo mais gerencial acabam dando pouca atenção a detalhes técnicos que encobrem grandes riscos. É preciso que todos aceitem a importância das diversas frentes de atuação, permitindo às empresas conhecer todos os problemas de maneira imparcial.

Nenhuma área de atuação profissional é composta apenas de profissionais e empresas de comportamento exemplar. Porém, todos devem ter como objetivo chegar o mais próximo possível disso. Quando falamos de segurança (não SI) e justiça, há promiscuidade com o mundo do crime, mas o objetivo e o ideal de todos é que isso não aconteça. Estamos um passo atrás, onde ainda é necessário definir o que é e o que não é aceitável. Assim que conseguirmos refinar os padrões de comportamento ético de nossa área de atuação, seremos encarados com mais seriedade por parte dos executivos e aí sim poderemos usufruir o crescimento sempre previsto para a área de SI.