Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

"Não há risco"

Ontem ouvi no rádio a notícia sobre a decisão da Justiça de derrubar a liminar que proibia o pouso de certos aviões em Congonhas, pois nas situações onde não há chuva, segundo o desembargador responsável, "não há risco".

Na semana passada, o assunto era o acidente do metrô. Várias entrevistas afirmando "não há riscos", seja de novos desabamentos ou acidentes similares em outros pontos da obra.

Acredito que com exceção das pessoas cujo trabalho é relacionado a gestão de riscos, tais frases não soaram estranho. Mas por que para nós soaria?

Porque quase nunca "não há risco". Não vai haver risco em Congonhas quando não houver mais pousos e decolagens lá. Enquanto tiver, sempre haverá risco. A diferença é que é um risco aceitável.

Agora, já imaginou se alguém fala em uma entrevista que "o risco de acidentes em Congonhas sem chuva é aceitável"? Caramba, vão apedrejá-lo.

As pessoas se iludem com o conceito de ausência de riscos, sem perceber que estão sempre aceitando riscos, em menor ou maior nível. "Não há risco de acidente de carro ao ir até a padaria". Bom, risco há, é claro! Qual será que era a percepção de risco de alguém que foi soterrado na obra do metrô?

Assumimos nos casos de baixo risco que ele é inexistente, ou nossa existência no mundo seria extremamente paranóica e estressante. Parece cruel alguém dizer que o risco de acidentes de avião é "aceitável". Vai morrer gente, isso é aceitável?? Se fossemos por outro caminho, ainda estaríamos na idade da pedra. Nosso cotidiano implica em correr riscos, riscos aceitáveis. Fingir que eles não existem ajuda a reduzir a ansiedade, mas para quem tem o dever de reduzí-los, pode ser um erro tremendo. Deixemos isso com os leigos, muito mais felizes que nós, eternos paranóicos.

1 Comments:

At 3:41 PM, Blogger Luciano Barreto said...

Perfeito!
Este post merece aplausos. Minha reverência à escolha do tema e das palavras.

 

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